terça-feira, 26 de março de 2013

Páscoa

   
Todos os anos, na época do outono, num jardim Waldorf, as crianças começam a se preparar para vivenciar intensamente a primeira das quatro festas anuais, a Páscoa. Elas cantam lindas músicas para o coelhinho da Páscoa; ouvem atentamente histórias sobre a lagarta e a borboleta; pintam ovos com muitas cores; preparam, com a professora, deliciosas roscas e pães. Todos esperam ansiosamente o domingo de Páscoa, quando sairão em busca dos ovinhos de chocolate escondidos pelos cantos da casa e do jardim. Nós, adultos, acompanhamos a alegria das crianças e inevitavelmente nos transportamos para as nossas próprias recordações de infância.

A Páscoa é uma festa repleta de imagens fortes e marcantes. Porém será que temos consciência do que há por trás destes símbolos? Será que sabemos nos preparar internamente para este momento tão importante?

Na tradição cristã, após os quarenta dias da quaresma e depois de refletir sobre os acontecimentos vivenciados por Jesus Cristo durante a Semana Santa (domingo de ramos, condenação da figueira, encontro com adversários no templo, unção, santa ceia, morte, descida ao reino dos mortos e ressurreição), os cristãos comemoram, no domingo de Páscoa, a glória da ressurreição de Cristo. Com sua paixão, morte e ressurreição, Cristo deixou-nos o precioso legado de uma nova vida após a morte, e quando seu corpo e sangue penetraram no mundo das profundezas, seu espírito possibilitou que a Terra, como um todo, se tornasse um novo centro de luz.

Dentro da pedagogia Waldorf, as crianças entram em contato com o sentido espiritual da Páscoa através de imagens transmitidas em histórias.

Por isso, durante a preparação das crianças para essa época, os educadores (pais e professores) devem ter claro dentro de si a possibilidade da vida, morte e ressurreição em hábitos, atitudes e modos de pensar. Se tivermos consciência da necessidade de cada um realizar este exercício interior, poderemos preparar coerentemente nossas crianças para a época da Páscoa e apresentar a elas símbolos repletos de significados. Só assim estaremos resgatando o real sentido da Páscoa.
 
O significado da Páscoa

A Páscoa não é uma festa totalmente terrestre. Ela depende de acontecimentos cósmicos. É comemorada no primeiro domingo após a primeira lua cheia que ocorrer depois do equinócio de outono, marcado pelo ingresso do Sol em Áries. Por isso não tem uma data fixa.

A Páscoa é sempre comemorada no domingo, mostrando uma relação com o Sol, astro que rege esse dia da semana. Também tem relação com a Lua cheia. Lembremos que a Lua não tem luz própria, refletindo a luz que recebe do Sol.

Então, a Páscoa nos remete diretamente à elevada entidade espiritual do Cristo. Intimamente ligada a forças solares, às forças da vida. Cristo venceu até mesmo a morte do corpo físico. Essa é uma imagem que podemos tomar como exemplo para nós e seguir um caminho de salvação da “alma”. A meu ver, esse caminho é da tentativa constante de compreensão do Mistério do Gólgota e da Ressurreição do Cristo, que nos leva a um encontro interior com este elevado ser. Isso não significa, necessariamente, seguir uma religião institucionalizada. Para mim, significa seguir um caminho religioso (religare) que nos leva para dentro de nós mesmos, interiorizado, através da persistência, dos estudos espirituais e da meditação.

A Páscoa nos aproxima, pela consciência, da morte e da ressurreição. Sugere uma assimilação na alma das forças de ressurreição de Cristo, forças de vida que vencem a morte.

Talvez seja um momento até de estarmos em transformação, pois, transformação implica na morte de algo velho para que o novo possa surgir. E um novo baseado em ideais que muitas vezes deixamos “adormecidos”.
 
Helena Maria de Jesus

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Pedagogia Waldorf: um bem social

 Escrito por Dr. Paulo Neves Júnior

Poderia um médico opinar sobre pedagogia?
Minhas filhas estudam em uma escola de Pedagogia Waldorf: a Escola João Guimarães Rosa. Ribeirão Preto tem a oportunidade de ter a pedagogia mais indicada para ser oferecida às crianças, e por isso ofereço minha visão a respeito.
A perspectiva do que é o ser humano do ponto de vista da Antroposofia pode ser retirada dos textos do Antroposofiando. Quem quiser acessar os artigos é só clicar no site do Peregrino, no setor de Antroposofia. Quem quiser ir atrás de mais literatura, veja os sítios na internet da Editora Antroposófica (www.antroposofica.com.br) e João de Barro (www.editorajoaodebarro.com.br).
No início de minha vida profissional demorei a compreender o que Rudolf Steiner propunha ao dizer que uma pedagogia exercida de forma correta teria um caráter de medicina preventiva. O que uma coisa tinha a ver com a outra? Eu me perguntava. Hoje entendo perfeitamente o que ele dizia. Uma pedagogia antroposófica propõe o ensino de acordo com a fenomenologia do desenvolvimento das crianças. Steiner lançou as bases dessa concepção pedagógica e quando a vejo sendo praticada dou-lhe plena razão. A Pedagogia Waldorf é mais do que levar uma proposta de saúde às crianças. Baseado na minha observação assim eu aponto:
- observo a professora cumprimentar individualmente a criança ao entrar na sala de aula: a criança aprende a ser saudada, a ser considerada e já recebe, portanto um primeiro contato no dia. As crianças fazem fila para isso e aguardam pacientemente a sua vez. Recebem um gesto de atenção individual, consideração, e aprendem a ter paciência, captam um exemplo de educação;
- as salas de aula têm número pequeno de crianças. Significa que o professor tem mais condição estrutural de conduzir o grupo e naturalmente há mais disponibilidade para atender as demandas individuais;
- as crianças pequenas não são avaliadas pelas formas das clássicas provas: não são levadas a uma situação de estresse tão habitual em nosso meio. Não são instadas a produzir sob essa forma de pressão. E não deixam de aprender por isso! E não formam adultos que só produzem sob pressão;
- a metodologia Waldorf se utiliza do recurso da fantasia para o aprendizado. Os instrumentos da arte permeiam todo o ensino, o caráter e a identidade do método. Isso estimula a criatividade além de evitar que sejam incutidos quaisquer conhecimentos de caráter unilateralmente abstrato. Resulta que as crianças aprendem a correlacionar o conhecimento com o real fenômeno das coisas. Isso evita um ensino baseado unicamente na memória, em que o que é passado para ser aprendido não faz sentido. Seja na conexão dos conhecimentos, seja no porquê daquilo. Como reminiscência, lembro do quanto me perguntava enquanto garoto do que me serviria aquilo que era obrigado a aprender, além de que a escola era uma chatice só...;
- para tal, entre outras ações, também a escola põe no currículo, viagens anuais relacionadas ao conteúdo de cada ano. Uma oportunidade de aspirar e vivenciar um conteúdo vivo, palpável, real (num mundo repleto de estímulos virtuais = não verdadeiro);
- Minha filha mais velha usou de uma tarde inteira para me confeccionar um presente de aniversário. Ninguém a estimulou para isso. Ela tomou sua decisão, bolou o “projeto” e realizou a obra por completo. Afora minha satisfação por esse carinhoso presente, ela demonstrou iniciativa, criatividade e capacidade de execução. Eu sei que isso provém da Pedagogia Waldorf, que é baseada em estimular as crianças a criarem soluções que partam de si mesmas. Por isso tenho dialogado com ex-alunos de escolas de ensino Waldorf e tenho colhido relatos do quanto eles tendem a buscar soluções por livre iniciativa. As crianças são conduzidas a buscarem alternativas de resoluções por si mesmas, então é o ensino de aprender a aprender. E não o de repetir padrões ou usar de métodos bolados por outros. Que é a camisa de força tão comum em nossa sociedade. Caso das provas, não é? Onde se recebe maiores notas, por quanto mais se consegue apenas repetir com maior fidelidade aquilo que foi introjetado. É o equívoco de valorizar as pessoas multiplicarem padrões, o que enfraquece o afloramento das riquezas das diversidades e heterogeneidades individuais;
- quem for a Escola João Guimarães Rosa não pode deixar de olhar para o espaço e a arquitetura. O ambiente foi idealizado em compatibilidade com a sua forma de ensinar. Há uma forma orgânica, com movimento que “diz” algo de positivo aos seres humanos ali presentes. A arquitetura se nutre da mesma visão da pedagogia, buscando um todo harmônico;
- durante o percurso escolar das crianças ao longo dos anos, os pais são estimulados a participarem de diversas ações relacionadas aos seus próprios filhos e à comunidade escolar em geral. Enquanto nas escolas convencionais os pais pagam para não terem responsabilidades, nas escolas Waldorf, eles pagam para serem participativos. A estrutura de gestão praticada leva os pais a serem co-responsáveis por todas as atividades escolares. As festas são realizadas pelos professores, funcionários e pais. As alegrias, as satisfações, o engajamentos dos pais com a finalidade pedagógica leva às crianças exemplos de um acompanhamento conjunto e cuidadoso;
- o que sempre foi praticado, e que era um exemplo, virou lei no terreno pedagógico convencional: as crianças especiais são colocadas junto às crianças sem distúrbios, desde pequenas. O que isso leva? Uma natural observação de um ser em crescimento a ver que outras pessoas têm em si uma inerente dificuldade. Já de cedo se oferece a oportunidade de aprender a lidar com as diferenças, de ter tolerância, de lidar com posturas e ações colaborativas. E no decorrer do tempo, fica muito claro, o quanto as crianças que necessitam de cuidados especiais também são beneficiadas por esse processo;
- a música faz parte da rotina escolar, reforçando a premissa da arte. Suas manifestações elaboradas e adquiridas por cada classe são demonstradas para o público escolar nas chamadas festas semestrais. Ali se pode apreender um pouco do que é praticado dentro das salas de aula. Para mim que não fui aluno de um aprendizado Waldorf, essas festas são momentos tocantes por toda a beleza em sentido mais amplo, aí configurado. Percebo que para o grupo fazer uma apresentação musical, as crianças precisam prestar atenção às outras e sincronicamente saí o resultado de um trabalho de grupo, um exercício de coletividade, onde o amálgama musical junta as diferenças de cada um para formar uma conjunção harmoniosa, com muito treinamento e esforço implícito ali. Enfim, a música entre outros bens espirituais que nos traz, estimula a criança a ser disciplinada;
- as atividades escolares são elaboradas para oferecer uma evolução cognitiva, de acordo com o patamar de desenvolvimento neurobiológico das crianças. Esse bem de imenso valor sugerido por Steiner molda a forma de atuação dos professores: os ensinamentos somente são dados a partir do momento em que o ser humano, naquela fase de crescimento infantil, apresenta-se pronto para acolher o aprendizado. Então nada é levado a uma precocidade tão em voga atualmente. É como se a criança dissesse: agora estou pronta para aprender algo novo e com complexidade diferente. Isso não gera atropelamentos no desenvolvimento infantil e é prevenção para Disfunções Cerebrais Mínimas, por exemplo;
- outro bem: não há estímulos para competição. Há uma segura linha de ensino onde observo que as crianças vão evoluindo em conjunto no adquirir dos novos conhecimentos e com reflexo no comportamento social. Outro dia tive a ótima oportunidade de ver os adolescentes, em fase de saída da escola por estarem terminando seu ciclo, irem brincar de maneira organizada, com as crianças do primeiro ano. Presenciei uma sensível manifestação de alegrias mútuas devido àquela interação;
- Assim a Pedagogia Waldorf, não prepara os seres humanos para a competição, por exemplo, o vestibular. Ela prepara os seres humanos para a vida, para as suas escolhas individuais. Conduz os adultos a resolverem problemas de maneira criativa e partindo de uma livre iniciativa. Quem sabe de seu valor não precisa competir com o outro, não precisa medir forças, não precisa derrubar o oponente. Quem se autodetermina, tem autoestima e certamente adoecerá menos.
Caso alguém queira olhar para os “resultados” da metodologia Waldorf, leia sobre “Os sete mitos da inserção social do ex-aluno Waldorf”, pesquisa elaborada pelo casal de pais da Escola Waldorf Rudolf Steiner de São Paulo, Wanda Ribeiro (socióloga) e Juan Pablo de Jesus Pereira (engenheiro civil e empresário), disponível na home-page da Sociedade Antroposófica no Brasil (www.sab.org.br).
Clínica Médica e Reumatologia Antroposóficas / Consultor Biográfico
Fonte: http://www.alumiar.com/educacao/39-antroposofia/704-pedagogiawaldorfumbemsocial

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Ventos de agosto...

Dança do Vento (Afonso Lopes Vieira)

O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia.
Baila, baila e rodopia
E tudo baila em redor.
E diz às flores, bailando:
- Bailai comigo, bailai!
E elas, curvadas, arfando,
Começam, débeis, bailando.

E suas folhas, tombando,
Uma se esfolha, outra cai.
E o vento as deixa, abalando,
- E lá vai!...

O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor.
E diz às altas ramadas:
Bailai comigo, bailai!
E elas sentem-se agarradas
Bailam no ar desgrenhadas,
Bailam com ele assustadas,
Já cansadas, suspirando;
E o vento as deixa, abalando,
E lá vai!...

O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
E diz às folhas caídas:
Bailai comigo, bailai!
No quieto chão remexidas,
As folhas, por ele erguidas,
Pobres velhas ressequidas
E pendidas como um ai,
Bailam, doidas e chorando,
E o vento as deixa abalando
- E lá vai!

O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
E diz às ondas que rolam:
- Bailai comigo, bailai!
e as ondas no ar se empolam,
Em seus braços nus o enrolam,
E batalham,
E seus cabelos se espalham
Nas mãos do vento, flutuando
E o vento as deixa, abalando,
E lá vai!...

O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

The New York Times - "Uma escola do Vale do Silício que não computa"


The New York Times

Avaliação da escola digital
Uma escola do Vale do Silício que não computa
O ambiente sem computadores da escola Waldorf tem atraído
pais de companhias de alta tecnologia como Google

Por Matt Richtell
Publicado em 22/10/11

Tradução de Valdemar W. Setzer 
e revisão de Sonia A.L. Setzer [1]

LOS ALTOS, Califórnia. O diretor de tecnologia da empresa eBay manda suas crianças para uma escola com 9 salas de aula. O mesmo fazem funcionários de gigantes do Vale do Silício como Google, Apple, Yahoo e Hewlett-Packard. Mas as principais ferramentas educacionais dessa escola não têm nada de alta tecnologia: canetas e papel, agulhas de tricô e, de vez em quando, barro. Nenhum computador à vista. Não há nenhuma tela. Eles não são permitidos em classe, e a escola até mesmo vê com maus olhos se são usados nos lares.

Em todo o país [trata-se dos EUA], escolas têm se apressado em prover suas classes com computadores, e muitos dos que estabelecem as políticas educacionais dizem que é idiota agir de outra maneira. Mas o ponto de vista contrário pode ser encontrado no epicentro da economia tecnológica, onde alguns pais e educadores têm uma mensagem a dar: computadores e escolas não se misturam.

Trata-se da Waldorf School of the Peninsula [Escola Waldorf da Península], uma das aproximadamente 160 escolas Waldorf no país que seguem uma filosofia de ensino focada em atividade física e aprendizado por meio de tarefas criativas, com a mão na massa [2]. Os que apoiam esse enfoque dizem que os computadores inibem o pensamento criativo, o movimento, a interação humana e períodos de concentração.

O método Waldorf existe há quase um século, mas o fato de ele ter se firmado entre os técnicos do mundo digital coloca em nítida evidência um debate crescente sobre o papel dos computadores na educação.

"Basicamente, eu rejeito a noção de que apoios tecnológicos são necessários no ensino fundamental," disse Alan Eagle, de 50 anos, cuja filha, Andie, é uma das 196 alunas do ensino fundamental Waldorf, e seu filho, de 13 anos, está na 2ª parte da escola fundamental [6ª a 9ª séries na seriação oficial atual do Brasil]. "A ideia que um programa aplicativo em um iPad consegue ensinar melhor meus filhos a ler e a fazer aritmética é ridícula."

O Sr. Eagle conhece um bocado de tecnologia. Ele tem um bacharelado em ciência da computação da Universidade Dartmouth e trabalha na comunicação da alta administração no Google, onde ele tem escrito discursos para o presidente, Eric E. Schmidt. Ele usa um iPad e um Smartphone. Mas ele diz que sua filha, que cursa o 5º ano, "não sabe como usar o Google," e seu filho está justamente aprendendo isso. (Começando no 8º ano [3], a escola apoia o uso limitado dos aparelhos.)

Três quartos dos alunos daqui têm pais com uma forte ligação com a alta tecnologia. O Sr. Eagle, como outros pais, não vê nenhuma contradição. A tecnologia, diz ele, tem seu tempo e lugar. "Se eu trabalhasse na Miramax e fizesse bons filmes, artísticos, classificados como R [restritos para menores], eu não gostaria que meus filhos os vissem até que tivessem 17 anos."

Enquanto outras escolas na região trombeteiam sobre as suas classes conectadas em rede, a escola Waldorf adota uma visão antiga e simples – quadros negros com giz colorido, estantes com enciclopédias, carteiras de madeira cheias de cadernos de anotações e lápis Nº 2.

Numa 5ª feira recente, Andie Eagle e seus colegas de 5º ano [3] estavam treinando suas habilidades de tricotar, cruzando agulhas de madeira em torno de novelos de lã, produzindo um tecido [4]. É uma atividade que a escola diz ajudar a desenvolver a capacidade de resolver problemas, a elaboração de desenhos, as habilidades matemáticas e a coordenação [motora]. O objetivo a longo prazo: fazer meias [5].

Em outra classe uma professora treinava alunos do 3º ano [Waldorf] em multiplicação, dizendo-lhes para imaginarem seus corpos transformados em relâmpagos. Ela lhes propunha um problema aritmético – 4 vezes 5 – e, em uníssono, eles gritavam "20" e apontavam seus dedos para o número no quadro negro. Uma sala de calculadores humanos.

No 2º ano alunos em pé em círculo aprendiam habilidades com a linguagem, repetindo versos, após o professor, enquanto ao mesmo tempo brincavam de agarrar saquinhos com sementes [p.ex., com feijões]. É um exercício que tem a finalidade de sincronizar o corpo e o cérebro [do ponto de vista Waldorf, deveria ser mind, mente]. Aqui, como em outras classes, o dia pode começar com a recitação de um verso sobre Deus, refletindo uma ênfase não confessional no divino.

A professora de Andie, Cathy Waheed, que tinha sido uma engenheira de computação, tenta fazer o aprendizado tornar-se irresistível e tangível. No último ano ela ensinou frações fazendo os alunos cortarem pedaços de alimentos – maçãs, pizzas, bolos – em quartos, metades e 16-avos.

"Durante 3 semanas, nós nos alimentamos de frações," ela disse. "Quando eu fracionava um bolo em um número de pedaços suficiente para dar a todos, você pensa que eu não tinha prendido a atenção deles?"

Alguns especialistas em educação dizem que a onda de equipar as classes com computadores não é desejável pois não há estudos mostrando claramente que isso leva a um melhor rendimento em testes educacionais ou outros ganhos mensuráveis.

Será que aprender por meio de frações de bolo e tricotar é melhor? Os defensores da pedagogia Waldorf tornam a comparação difícil, em parte porque, sendo escolas privadas, elas não passam testes padronizados no ensino fundamental ["standardized tests" testes adotados nacionalmente nos EUA, nas escolas públicas]. E eles são os primeiros a admitir que seus alunos das primeiras séries talvez não se saiam tão bem em tais testes porque, dizem, eles não os treinam dentro de um currículo padrão de matemática e de língua pátria.

Quando inquirida sobre uma demonstração da efetividade das escolas, a Association of Waldorf Schools of North America [Associação Norte-americana de Escolas Waldorf] aponta para pesquisas de um grupo afiliado a ela, mostrando que 94% de alunos formados de ensinos médios Waldorf nos Estados Unidos entre 1994 e 2004 cursaram o ensino superior, sendo muitos em instituições de prestígio como Oberlin [Oberlin College], Berkley [The University of California at Berkeley] e Vassar [Vassar College]. [6]

Obviamente, esse número pode não ser surpreendente, dado que esses alunos vêm de famílias que dão um valor suficientemente elevado à educação para procurarem uma escola particular selecionada, e têm os meios para pagá-la [7]. Além disso, é difícil separar os efeitos de métodos de instrução de baixa tecnologia de outros fatores. Por exemplo, pais de alunos da escola de Los Altos dizem que ela atrai excelentes professores, que passam por treinamento intenso no método Waldorf, desenvolvendo um vigoroso senso de sua missão, que pode estar faltando em outras escolas.

Na falta de evidências claras, o debate reduz-se à subjetividade, à escolha dos pais e a uma diferença de opinião em torno de uma só palavra: envolvimento. Os defensores de se equipar escolas com tecnologia dizem que os computadores podem prender a atenção dos estudantes e que, de fato, jovens que ficaram sem aparelhos eletrônicos não se adaptarão [à sociedade] sem eles. [Essa frase usa "weaned", que significa "desmamar" (dos aparelhos), e "tune in", que significa "sintonizar" (sem eles).]

Ann Flynn, diretora de educação tecnológica da National School Boards Association [Associação Nacional de Diretorias de Escolas], que representa diretorias de escolas em todo o país, disse que os computadores são essenciais. "Se as escolas têm acesso aos aparelhos e têm recursos para isso, mas não os estão usando, estão enganando nossos filhos," disse a Sra. Flynn.

Paul Thomas, um ex-professor de escola e Professor Associado de educação na Universidade Furman, que escreveu 12 livros sobre métodos educacionais no ensino público, não concorda, dizendo que "parcimônia em relação à tecnologia em classe sempre beneficiará o aprendizado."

"Ensinar é uma experiência humana," ele disse. "Tecnologia é um elemento de distração quando necessitamos de alfabetização, aritmetização e pensamento crítico."

E pais Waldorf argumentam que um envolvimento real vem de excelentes professores com esquemas interessantes para as aulas.

"Envolvimento tem a ver com contato humano, o contato com o professor, o contato com os colegas," disse Pierre Laurent, 50, que trabalha numa nova empresa de alta tecnologia e antes trabalhou na Intel e na Microsoft. Ele tem 3 filhos em escolas Waldorf, que impressionaram tanto a família que sua esposa, Monica, passou a atuar em uma delas como professora em 2006.

E quando defensores de prover classes com tecnologia dizem que crianças necessitam tempo de [aprendizado com] computador para competir no mundo moderno, pais Waldorf rebatem com: qual é a pressa, dado que é fácil adquirir essas habilidades?

"É superfácil. É como aprender a usar pasta de dentes," disse o Sr. Eagle. "No Google e em todos esses lugares, nós fazemos a tecnologia tão pouco intelectualmente exigente quanto possível. Não há razão para que crianças não a aprendam quando ficarem mais velhas."

Há também muitos pais envolvidos com alta tecnologia em uma escola Waldorf em San Francisco, e logo ao norte dessa cidade na Escola Greenwood, em Mill Valley, que não é reconhecida oficialmente [pela Association of Waldorf Schools of North America], mas é inspirada pelos seus princípios [da pedagogia Waldorf].

A Californa tem cerca de 40 escolas Waldorf, dando-lhe uma fatia desproporcional [em relação aos outros estados] – talvez porque o movimento está se enraizando aqui, disse Lucy Wurtz que, junto com seu marido, Brad, ajudou a fundar o ensino médio da escola Waldorf de Los Altos em 2007. O Sr. Wurtz é presidente da Power Assure, que colabora com centros de processamento de dados no sentido de reduzir seu consumo de energia.

A experiência Waldorf não sai barata: a anuidade nas escolas do Vale do Silício é de US$ 17.550 (R$ 30.914,00, ao câmbio comercial de venda em 26/10/11), do jardim de infância até o 8º ano e US$ 24.440 (R$ 41.792,00) para o ensino médio, se bem que, segundo a Sra.Wurtz, há disponibilidade de auxílio financeiro. Ela diz que o pai Waldorf típico, que tem uma variedade de escolas públicas e particulares para escolher [7], tende a ser liberal e ter uma formação bem alta, com uma intensa visão sobre educação; ele também sabe que quando for a hora de ensinar tecnologia a seus filhos eles terão um amplo acesso e conhecimento dentro do lar.

Enquanto isso, os alunos dizem que eles não têm preferência por tecnologia, nem tampouco são totalmente alienados. Andie Eagle e seus colegas do 5º ano dizem que de vez em quando veem filmes. Uma garota, cujo pai trabalha como engenheiro na Apple, diz que ele às vezes pede a ela para testar alguns jogos eletrônicos que ele está depurando. Um garoto brinca com programas simuladores de voo nos fins de semana.

Os alunos dizem que eles ficam frustrados quando seus pais e parentes ficam muito envolvidos com telefones e outros aparelhos. Aurad Kamkar, de 11 anos, disse que foi recentemente visitar primos e ficou sentado com 5 deles jogando com seus aparelhos, sem prestar atenção a ele ou a cada um dos outros. Ele começou a acenar com seus braços para eles: "Eu disse: ‘Oi, gente, eu estou aqui.’ "

Finn Heilig, de 10 anos, cujo pai trabalha no Google, diz que ele gostou de aprender com caneta e papel – em lugar de usar um computador – porque ele podia controlar seu progresso ao longo dos anos.

"Você pode olhar para trás e ver como sua escrita era bagunçada no 1º ano. Com computadores você não consegue fazer isso, pois nele todas as letras saem do mesmo jeito," disse Finn. "Além disso, se você aprende a escrever no papel, ainda pode continuar a escrever se cai água no computador ou se acaba a energia elétrica."
[1] Notas do tradutor aparecem no texto entre colchetes. O alinhamento horizontal entre os parágrafos em inglês e na tradução funciona para uma 'janela' de 33,3 cm de largura no navegador Firefox 7.0.1, podendo desalinhar em outros tamanhos de 'janela' e em outros navegadores.
Curiosamente, na época desta tradução 2 netos do tradutor e da revisora, de 15 e 12 anos, estão cursando, por um semestre, a escola Waldorf em Los Altos mencionada no artigo. Eles já a cursaram 5 anos atrás, também por um semestre, e fizeram questão de voltar para ela nessa nova estadia nos Estados Unidos.

[2] No Brasil há 25 escolas Waldorf com ensino fundamental, eventualmente também com o ensino médio, e há ainda dezenas de jardins de infância fora dessas escolas. Para listas dessas escolas e jardins, ver os diretórios de pedagogia Waldorf na América Latina e o de jardins de infância Waldorf no Brasil. Uma visita a uma escola ou a um jardim Waldorf é altamente recomendável, para se ter uma ideia da realidade da pedagogia e verificar como uma pedagogia alternativa pode ter sucesso, educando crianças sem pressão e traumas, pois não há notas e repetições de ano, e onde o ensino artístico e artesanal é intenso durante toda a escolaridade. Cada escola Waldorf é independente, isto é, não existe uma orientação rígida unificada, nem no Brasil, nem no mundo, e tem mesmo a obrigação de adaptar adequadamente o currículo ao local e ao tempo, sempre respeitando a maturidade global das crianças. Há uma Federação das Escolas Waldorf no Brasil, que certifica cada escola ou jardim como seguindo os princípios básicos da pedagogia Waldorf.

[3] A seriação das escolas Waldorf no mundo inteiro é a seguinte: 1º ao 8º anos de ensino fundamental e 9º ao 12º anos do ensino médio. (Usamos a denominação "ano" para o ensino Waldorf e "série" para o ensino tradicional.) Essa é também a seriação tradicional européia e americana fora das escolas Waldorf. Nestas últimas, em geral a criança entra no 1º ano entre 6 ½ e 7 anos de idade; crianças de idades limítrofes são examinadas lúdica e qualitativamente para avaliação da maturidade. A alfabetização é muito lenta, e começa apenas no 1º ano – jamais no jardim de infância, o que seria considerado altamente prejudicial ao desenvolvimento harmônico das crianças. O jardim de infância é considerado uma extensão do lar, e não é chamado de "educação infantil" pois nele não existe ensino formal.

[4] Na pedagogia Waldorf, alunos e alunas fazem todos os mesmos trabalhos manuais, sempre com alguma utilidade prática, independente do material usado.

[5] Meias de lã; no currículo Waldorf padrão, os alunos dos 5os anos tricotam uma meia com 5 agulhas, sem costura.

[6] Ver também a pesquisa de Wanda Ribeiro e Juan Pablo, feita com ex-alunos da Escola Waldorf Rudolf Steiner de São Paulo, "Sete mitos da inserção social do ex-aluno Waldorf"

[7] No Brasil, as escolas Waldorf não custam em geral mais do que as boas escolas particulares, apesar de oferecerem muito mais em termos de ensino e, contando a escola como um todo, terem bem menos alunos por professor. Consegue-se isso pois nenhuma escola Waldorf tem fins lucrativos: pertence a uma associação filantrópica de pais, mestres e amigos. Em termos americanos de custo dessas escolas, é preciso também considerar que, em geral, as escolas públicas americanas são bastante boas do ponto de vista de formação intelectual e até geral; por exemplo, é tradição por lá que cada escola pública tenha uma banda sinfônica, bem como excelentes meios para aulas de educação física. Assim, nos EUA, pais que colocam seus filhos em escolas Waldorf realmente fazem um grande sacrifício financeiro e, portanto, reconhecem que a pedagogia Waldorf representa aquilo que mais se aproxima de seu ideal pedagógico. Entre nós, dada a triste situação atual do ensino estatal, não só do ponto de vista educacional, mas também do ambiente entre os alunos, poucos pais com um certo nível cultural e com posses suficientes teriam coragem de colocar seus filhos em escolas públicas nos ensino fundamental e médio, a menos de honrosas exceções. É preciso adicionar que há no Brasil escolas Waldorf comunitárias, como a Escola Rural Dendê da Serra, em Uruçuca, Serra Grande, BA (perto de Itacaré) e também a Escola Comunitária Municipal do Vale de Luz, Nova Frigurgo, RJ. Na Alemanha, onde há dezenas e dezenas de escolas Waldorf, estas são em geral subsidiadas pelos governos estaduais, por se reconhecer o serviço educacional que elas prestam à população e, também, por constituírem praticamente a única alternativa ao ensino estatal, dando-se assim uma chance de escolha pedagógica para os pais; nesses casos os pais pagam uma mensalidade relativamente baixa. Segundo a UNESCO, a pedagogia Waldorf é o único movimento pedagógico coerente em âmbito mundial.

Última revisão: 21/11/11

Artigo extraído em http://www.sab.org.br/pedag-wal/artigos/NYT-Waldorf-Peninsula.htm , no dia 06 de agosto de 2012.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

João - Uma advertência à nossa consciência

Por Evelyn Scheven

Precisamente meio antes do evento do Natal, nasce num certo país uma crianças cujos pais eram muito velhos. Conta-se que os clarividentes da época, pouco tempo após o nascimento, observaram que se tratava de uma criança muito especial e que, como se por hereditariedade, trazia consigo toda a experiência de seus velhos pais.
Por ser sacerdote seu pai dava-lhe uma educação muito rígida, cheia de sabedoria, o que fazia refletir na sua própria maneira de agir: conta-se que, entre muitas outras coisas, era um ser: pensativo, melancólico, que brincava pouco e que tinha uma inteligência bem acima da média de sua idade – aos dez anos, já participava das discussões e debates dos sacerdotes. – Esta criança se chamava João e nasceu no dia 24 de junho.
Em 24 de dezembro daquele mesmo ano, nasce outra criança cujos pais eram muito simples (seu pai era marceneiro) Conta-se que, ao contrário da primeira, esta criança teve uma educação muito simples e que era muito criativa e gostava muito de brincar. Sua educação nada tinha do conteúdo iniciático dos sacerdotes.
Estas duas crianças, durante a sua infância, mantiveram muito contato entre si. Cresceram juntas e uma delas seguiu a profissão do pai, mas logo se revelou a vontade de ajudar o próximo, de entendê-lo, despertar-lhe a criatividade de querer transformar o mundo.
A outra consolida cada vez mais suas características da infância e, ao tornar-se adulta, afasta-se da sociedade para pensar e meditar. Retirando-se para o deserto concentra-se em si mesmo com o objetivo de entender em que ponto chegou à humanidade no seu caminho evolutivo. Percebe então que, na sua caminhada, a humanidade alcança um “beco sem saída”. Na sua meditação, adquire a profunda consciência do mundo de sua época.
Ele não procurava as pessoas, elas é que vinham a ele para serem batizadas e dele receberem ensinamentos. Orientava as pessoas para que mudassem o sentido se suas vidas, já que a “velha” maneira de viver e pensar não mais levaria a humanidade ao futuro.
Sua consciência em compreender o passado, era também capaz de olhar o futuro, e de perceber no seu companheiro de infância não só um homem com consciência, mas também como uma criativa força de transformação.
Assim, João, conscientemente, une no batismo do Rio Jordão, o velho ao novo mundo. Pouco tempo depois, vai para o sacrifício do monte, onde é condenado e decapitado por Herodes.
Assim como o 24 de dezembro e o 24 de junho se encontram em polaridade no transcorrer do ano, estas duas criaturas – Jesus e João – encontram-se em polaridade na história da humanidade. Um reúne em si a força criativa da luz do sol; o outro tem, através da consciência, a força reflexiva da lua.
O homem moderno inicia o ano em 24 de dezembro e, no decorrer deste, passando pela Páscoa e Pentecostes, chega a 24 de junho – aniversário de João Batista. Ele é levado a compreender nesta polaridade com o Natal, com toda a sua consciência, o acontecimento de Cristo. Como sinal do despertar dessa consciência, pode entender o acender de fogueiras na escuridão da noite do aniversário de João Batista.

Fonte: Insituto Mainumby. Festejar São João. Associação Comunitária Monte Azul.

domingo, 27 de maio de 2012

Estória "A Menina da Lanterna"


A Menina da Lanterna

            Era uma vez uma menina que carregava alegremente sua lanterna pelas ruas. De repente chegou o vento, que com grande ímpeto apagou a lanterna da menina.
          – Ah! – exclamou a menina. – Quem poderá reacender a minha lanterna? Olhou para todos os lados, mas não achou ninguém. Apareceu, então, um animal muito estranho, com espinhos nas costas, de olhos vivos, que corria e se escondia muito ligeiro pelas pedras. Era um porco-espinho.
           – Querido porco-espinho! – Exclamou a menina – O vento apagou a minha luz. Será que você sabe quem poderia acender a minha lanterna?
E o porco-espinho disse a ela que não sabia, que perguntasse a outro, pois precisava ir pra casa cuidar dos filhos.
            A menina continuou caminhando e encontrou-se com um urso, que caminhava lentamente. Ele tinha uma cabeça enorme e um corpo pesado e desajeitado, e grunhia e resmungava.
            – Querido urso! – falou a menina. - O vento apagou a minha luz. Será que você sabe quem poderia acender a minha lanterna?
E o urso da floresta disse a ela que não sabia, que perguntasse a outro, pois estava com sono e iria dormir e repousar.
            Surgiu, então, uma raposa, que estava caçando na floresta e se esgueirava entre o capim. Espantada, a raposa levantou seu focinho e, farejando, descobriu a menina. Indignada, a raposa dirigiu-se a ela e mandou que voltasse pra casa, porque a menina espantava os ratinhos.
Com tristeza, a menina percebeu que ninguém queria ajudá-la. Sentou-se sobre uma pedra e chorou.
            Neste momento surgiram estrelas que lhe disseram para ir perguntar ao Sol, pois ele com certeza poderia ajudá-la.
            Depois de ouvir o conselho das estrelas, a menina criou coragem para continuar o seu caminho.
            Finalmente, chegou a uma casinha, dentro da qual avistou uma mulher muito velha, sentada, fiando sua roca. A menina abriu a porta e cumprimentou a velha.
            - Bom dia, querida vovó – disse ela
            - Bom dia, respondeu a velha.
            A menina perguntou se ela conhecia o caminho até o Sol e se ela queria ir com ela, mas a velha disse que não podia acompanhá-la porque fiava sem cessar e sua roca não podia parar. Entretanto, pediu à menina que descansasse um pouco, pois o caminho era muito longo. A menina entrou na casinha e sentou-se para descansar. Pouco depois, pegou sua lanterna e continuou a caminhada.
            Mais adiante, encontrou outra casinha no seu caminho, a casa do sapateiro. Ele estava consertando muitos sapatos. A menina abriu a porta e cumprimentou-o. Perguntou, então, se ele conhecia o caminho até o Sol e se queria ir com ela procurá-lo. Ele disse que não podia acompanhá-la, pois tinha muitos sapatos para consertar. Deixou que ela descansasse um pouco, pois sabia que o caminho era longo. A menina entrou e sentou-se para descansar. Depois pegou sua lanterna e continuou a caminhada.
            Ao longe avistou uma montanha muito alta.
Com certeza, o Sol mora lá em cima – pensou a menina e pôs-se a correr, rápida como uma corsa. No meio do caminho, encontrou uma criança que brincava com uma bola. Chamou-a para que fosse com ela até o Sol, mas a criança nem respondeu. Preferiu brincar com sua bola e afastou-se saltitando pelos campos. Então a menina da lanterna continuou sozinha o seu caminho. Foi subindo pela encosta da montanha. Quando chegou ao topo, não encontrou o Sol.
            - Vou esperar aqui até o Sol chegar – pensou a menina, e sentou-se na terra.
            Como estivesse muito cansada de sua longa caminhada, seus olhos se fecharam e ela adormeceu.
            O Sol já tinha avistado a menina há muito tempo. Quando chegou a noite ele desceu até a menina e acendeu a sua lanterna.
            Depois que o sol voltou para o céu, a menina acordou.
            - Oh! A minha lanterna está acessa! – exclamou, e com um salto pôs-se alegremente a caminho.
            Na volta, reencontrou a criança da bola, que lhe disse ter perdido a bola, não conseguindo encontrá-la por causa do escuro. As duas crianças procuraram então a bola. Após encontrá-la, a criança afastou-se alegremente.
            A menina da lanterna continuou seu caminho até o vale e chegou à casa do sapateiro, que estava muito triste na sua oficina. Quando viu a menina, disse-lhe que seu fogo tinha se apagado e suas mãos estavam frias, não podendo, portanto, trabalhar mais. A menina acendeu a lanterna do artesão, que agradeceu, aqueceu as mãos e pôde martelar e costurar seus sapatos.
            A menina continuou lentamente a sua caminhada pela floresta e chegou ao casebre da velha. Seu quartinho estava escuro. Sua luz tinha se consumido e ela não podia mais fiar. A menina acendeu nova luz e a velha agradeceu, e logo sua roda girou, fiando, fiando sem cansar.
Depois de algum tempo, a menina chegou ao campo e todos os animais acordaram com o brilho de sua lanterna.
A raposinha, ofuscada, farejou para descobrir de onde vinha tanta luz. O urso bocejou, grunhiu e, tropeçando desajeitado, foi atrás da menina. O porco-espinho, muito curioso, aproximou-se dela e perguntou de onde vinha aquele vaga-lume tão grande.
Assim, a menina voltou feliz pra casa, sempre cantando a sua canção!