sexta-feira, 30 de maio de 2014

A Festa da Lanterna


(Por Carmen Silvia Zietemann)
Atenção, abrir em uma nova janela. 

                Uma das épocas intensamente vivenciada pelas crianças do Maternal e Jardim de infância, em nossa Escola, é a Festa da lanterna que antecede a festa de São João.
No final do outono, quando as noites vão ficando mais longas e tanto a natureza como o próprio homem iniciam um impulso de contração, uma interiorização, as crianças da Educação Infantil começam a preparar-se para esta festa, cujo sentido está na imagem da busca da luz interior.
Durante várias semanas todo um clima propício é vivenciado nas classes, enquanto as professoras e crianças pintam, recortam e montam lanternas. São cantadas canções que falam de seu brilho e como ele ilumina o coração dos homens e afasta a escuridão.
A estória da “Menina da Lanterna” traz vários elementos de significado espiritual representados por cada personagem. E num todo o conto mostra a trajetória da alma humana em busca da consciência de si mesma, em busca da luz do Sol (Luz Crística) para sua transformação interior, abrindo caminhos ao doar-se.
Este conteúdo pode ser vivenciado pelas crianças como um belo conto de fadas num nível imaginativo e numa atmosfera de sonho.
Finalizada a peça, que é encenada no Teatro da escola, as famílias dirigem-se às classes, onde as lanternas são cerimoniosamente acesas e as crianças, familiares e professores, deixando o ambiente aconchegante das salas, dão inicio ao passeio. Pequenas procissões dos participantes, levando suas lanternas pela mão, iluminando os caminhos em total penumbra e cantando lindas canções.
De todos os cantos do jardim aparecem os grupos que, como cordões de vaga-lumes, se encontram, se cruzam, explorando os lugares mais escuros, formam rodas, passam por túneis formados pelos adultos, para finalmente voltarem aos seus lares.
O ideal é que esta atmosfera especial possa ter continuidade em casa! Que a última refeição do dia já esteja preparada em cada lar e as luzes não precisem ser acesas. As próprias lanternas iluminarão o ambiente, lembrando assim o clima do qual todos acabaram de sair, propiciando uma harmonia união familiar. Desta forma as crianças poderão dormir preenchidas pelas imagens da buscar da luz e da manutenção desta dentro de si. 
Doar esta luz tão especial será então um segundo passo que poderá transformar-se num impulso social na vida futura de cada um.


Fonte: Revista Nós, Época de São João, 2005, Escola Waldorf Rudolf Steiner, São Paulo/SP.


quarta-feira, 28 de maio de 2014

SEMANA MUNDIAL DO BRINCAR (25 a 31 de Maio de 2014)

Brincar: a atividade mais séria da criança
Por Renate Keller Ignácio

Brincar, para a criança, é tão importante e sério como trabalhar é para o adulto. Ou mais até, porque dificilmente encontramos um adulto tão dedicado ao seu trabalho como a criança o é à sua brincadeira. O trabalho é dirigido de fora, pelas necessidades e metas dos adultos. Brincar brota de dentro da criança. Brincando, a criança imita o trabalho, os gestos do adulto. Assim, ela descobre o mundo. Ela vivencia suas leis sem fazer conceitos lógicos sobre elas. Quando ela brinca com água, experimenta como se formam as gotinhas e vê como o sol brilha nelas. Ou joga pedrinhas numa poça d\'água e acompanha os círculos concêntricos que vão se abrindo cada vez mais até chegar na beirada. Ou faz um barquinho de bambu ou de casca de árvore e fica alegre quando este flutua. Isto tudo para a criança é pura vivência.

Se o adulto tenta levar estas experiências à consciência da criança, formulando com ela leis básicas de física, ele estraga a brincadeira, afastando a criança da ação e do movimento e separando-a do mundo ao qual ela ainda está totalmente unida. A criança pequena é inteiramente força de vontade. Ela só quer agir, transformar, brincar. Nunca pára quieta.

Se o adulto apóia essa força de vontade, dando espaço para a criança brincar sadiamente, quando a criança se tornar adulta também terá vontade de agir e de transformar o mundo. Hoje em dia, muitas vezes só se dá valor à inteligência e, quando se pensa em educação, só se pensa em educação do pensar lógico. Mas o homem não é feito só de cabeça, ele também tem coração e membros. Ele não só pensa, como também sente e age. E, principalmente antes dos sete anos, podemos fortalecer a vontade de agir.

A necessidade de brincar é inserida no organismo da criança. Esse organismo, quando nasce, ainda não está pronto. Os órgãos estão apenas esboçados. O esqueleto ainda é maleável. Podemos sentir a moleira na cabeça do nenê, sinal de que ela ainda está aberta para as forças plasmadoras que estão formando o cérebro. Grandes forças vitais plasmam o organismo da criança, continuando e aperfeiçoando o trabalho que foi começado no útero materno. São forças da natureza que trabalham ritmicamente, num ritmo de dia e noite e de respiração (concentrando-se na inspiração e expandindo-se na expiração). Podemos imaginar essa força, também, como um artista cósmico que modela com grande sabedoria o organismo da criança. O trabalho desse "artista" está em grande parte terminado no sétimo ano de vida, quando a criança troca os dentes. Até os sete anos, tudo o que a criança faz tem como origem esse processo plasmador que está acontecendo em seu interior. Por isso, a criança não pode parar quieta e tem de brincar. Esse ato de brincar não possui finalidade lógica imposta de fora, mas segue os impulsos inconscientes que têm sua origem dentro do organismo.

Uma criança pode fazer uma casinha de panos, dali a pouco tira o pano da parede e embrulha nele o seu nenê para passear. Logo ela junta as cadeiras para formar um ônibus, mas, de repente, vê algumas pedrinhas no chão, que são os peixinhos que ela vai pescar. O barco é uma casca de coco. Quando a casca está cheia, despeja tudo no chão porque quer usar o coco como panelinha, enchendo-o novamente com serragem e pondo-o no fogão, que ela monta com pedacinhos de pau. Assim vai, sem nenhuma constância, pulando de um brinquedo para outro. Por isso, muitas vezes, os adultos não consideram que brincar seja uma atividade séria, ou então se assustam, achando que a criança começa tudo sem terminar nada. Mas, observando e estudando mais profundamente o que acontece com a criança antes dos sete anos, compreendemos que brincar é uma necessidade orgânica, e que a forma como a criança se expressa, e os brinquedos que damos para ela, têm uma profunda influência sobre o trabalho plasmador que ocorre no interior de seu organismo porque, ao mesmo tempo em que a criança está totalmente voltada para o seu interior, ela é aberta e muito sensível a tudo o que está ao seu redor. Forma, cor e decoração da sala, o tipo de brinquedos e tudo o que a criança vivencia em seu meio ambiente fazem-lhe impressões no sentido mais literal da palavra: imprimem-se em seu corpo físico e determinam saúde ou doença, para a vida toda.

A sala deve ser sempre aconchegante, quase como que abraçando a criança. Nunca como uma sala de aula ou sala de hospital, grande, branca, fria. Quando a criança entra na sala, ela deve ter o sentimento: "Esta é minha casa, como ela é bonita!" É muito bom quando a sala tem vários cantinhos separados por biombos ou cavaletes leves, cobertos por panos, onde as crianças podem se esconder, brincar de casinha e formar grupinhos menores. Os brinquedos devem ser os mais simples possíveis. Quanto mais simples for um brinquedo, mais a criança se tornará ativa em seu interior, em sua fantasia. Uma boneca, por exemplo, pode ser um pano de algodão amarrado no meio, para formar a cabeça, e dois nós, em duas pontas, como mãos. Quando a criança brinca com esta boneca, ela tem de fazer o esforço da fantasia, para imaginar os olhos, a boca, os cabelos etc. Ela conversa com a boneca e a faz chorar, rir, comer. Esse movimento interior da fantasia é tão importante para a criança como o movimento de seu corpo físico. Se déssemos uma boneca "perfeita", que pisca os olhos, tem um rosto bem definido, chora, anda, faz xixi "de verdade", é como se puséssemos então a fantasia da criança numa camisa-de-força, e ela se atrofia. Assim, também o ,corpo da criança se atrofia quando não se movimenta o suficiente. E certo que uma criança, com cinco ou seis anos, quer uma boneca um pouco mais requintada. Podemos então fazer uma boneca de pano para ;ela, com braços, pernas, roupas, cabelos e um rosto pintado ou bordado, talvez dois pontinhos indicando os olhos, outro a boca - de qualquer forma, sem expressão definida.

A boneca é a imagem do ser humano. A criança a imita e se identifica com ela. Sempre temos de ter isso em mente quando fazemos ou compramos uma boneca para ela. (*)

Existe o preconceito de que só as meninas devem brincar com boneca, e que os meninos já devem mostrar uma certa dureza, lutando com outros meninos, chutando bola ou brincando até com revólver, para mostrar que eles já são pequenos machos. Como é que vamos ter pais de família sensíveis e carinhosos se nós já pomos na cabeça dos meninos pequenos que carinho é coisa de mulher? Observei, muitas vezes, meninos pegando uma boneca escondidos dos outros e levando-a para um cantinho onde ninguém pudesse observá-los. Ali, então, ele brincava gostoso, conversava com a filhinha, dava mamadeira para ela, trocava a roupa dela,. e seus olhos brilhavam felizes. Mas se nessa hora alguém diz: "Que é isto? Menino brincando com boneca?", seu rosto se fecha e podemos observar uma grande decepção, que é compensada, depois, com brincadeiras brutas, "brincadeiras de meninos", agressões. O contrário também acontece: menina tem de ser toda delicadeza, não pode sujar-se, não pode correr, não pode trepar em árvores, nem soltar pipa etc. Ela tem de ficar em casa cuidando do serviço, logo cedo. Se compreendermos como o ato de brincar livremente com a fantasia é importante para o desenvolvimento do ser humano, independente de ser homem ou mulher, podemos ter uma idéia de como estes preconceitos são prejudiciais.

Fonte: "Criança Querida - O dia-a-dia das creches e jardim-de-infância" de Renate Keller Ignácio (páginas 25, 26, 27 e 28) - Editora Antroposófica

*Veja também: Evelyn Scheven: "Minha Querida Boneca".

SAIBA MAIS SOBRE A SEMANA MUNDIAL DO BRINCAR:

http://www.aliancapelainfancia.org.br/


segunda-feira, 10 de março de 2014

Reflexão sobre o Carnaval

Queridos Pais, Mães e Amigos e Amigas,

Iniciamos o ano letivo comemorando os festejos carnavalescos que nos contagiam e encantam com toda a riqueza cultural, característica do nosso país e, especificamente, da região do nordeste. 
Deparamo-nos, no entanto, com o distanciamento do conhecimento dos símbolos inerentes a esta festividade, sua história e sua relação com uma das festas Cristãs mais importante, a Páscoa.
Existem inúmeras informações sobre as origens históricas do carnaval. Porém, o que nos interessa é o que de fato, simbolicamente, a representa, em termos de alimento para a alma, com toda a magia que lhe é peculiar. 
É sempre bom lembrarmos que as crianças são “pura imitação”, e, assim, é fundamental que nós, adultos, possamos vivenciar cada época imbuídos dos significados e simbolismos que a permeia, tomando cuidado para que não entremos no automatismo do fazer porque todos fazem. O caminho para isso é entender o que está por trás de cada evento como este, sua relação com os fenômenos da natureza.
Nesse sentido, compartilhamos o texto do escritor Eduardo Amarantes que aborda, de forma bastante interessante, aspectos históricos e simbólicos do carnaval. Esperamos que o mesmo desperte, em cada pessoa que o leia, a vontade de aprofundar o seu conhecimento sobre a origem e o sentido das festas anuais celebradas em nossa escola.

Boa leitura!
Jardim alecrim Recife
Recife, 28 de fevereiro de 2014

Autor da Obra: Bajado


O Carnaval (Por Eduardo Amarante)

O Carnaval, mais conhecido no meio rural como Entrudo (introitus, entrada) é um rito de passagem de um tempo velho para um tempo novo. Teve a sua última forma expressa nas Saturnais romanas, que compreendiam um conjunto de ritos visando a expulsão das forças malignas do Inverno, em vista da renovação da natureza.

Trata-se, fundamentalmente, de uma cerimônia de purificação de fim de inverno (a morte que precede a vida) para dar início a um novo ciclo de fertilidade.

Originariamente, nessa ocasião acontecia um conjunto de ritos, tais como purgações, procissões mascaradas (as máscaras representam as almas dos mortos que apelam à vida, e a morte do Inverno), extinção e reactivação do fogo, com vista à destruição de tudo o que representava o tempo passado, para dar lugar, com o reavivar do fogo, à criação, à restauração das formas.

Estes dias de festa são caracterizados por uma licenciosidade sem malícia que funciona como uma catarse colectiva (abolição das formas, regresso ao caos, prenúncio de uma nova ordem, de um renascimento colectivo), onde se assiste à exteriorização da própria alegria. Nas aldeias de Portugal esta festa é “inteiramente espontânea e desorganizada. O trabalho é interrompido durante os três dias gordos, a ruptura com o quotidiano é total.

Em terras transmontanas, os festejos dos três dias de Entrudo correspondem às Bacanais de Março. Celebrizam-se pelas grandes comezainas, mascaradas e bailes.

O Carnaval é a expressão de antigos cultos agrários associados ao Sol. Em certas localidades queima-se ou mata-se o Meco, figura de palha que simboliza o Inverno ou a morte invernal da natureza. Desse modo, esta festividade aparece como vestígio remoto das cerimônias de purificação das forças malignas do Inverno, com vista à renovação da vegetação, cerimônias essas que, reforçamos, tiveram sua última forma de expressão nas Saturnais romanas.

Originariamente comportavam o sacrifício anual do Rei, que transparece nos actuais enterros do Entrudo nas suas várias formas, nas lutas do Verão e do Inverno, expulsões da Morte, etc., e caracterizavam-se pela sua total licenciosidade, prenunciando magicamente a alegria causada pela abundância que se adivinhava. O Carnaval mergulha a sua raiz mais funda numa cerimônia de carácter religioso em vista da fertilidade.


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Criança sem horário certo para dormir tem mais problemas de comportamento

 
Imagem extraída em: elclubdelartelatino.blogspot.com


“Não há dor que o sono não consiga vencer." (Honoré de Balzac)

Uma criança que não tem horário certo para dormir pode apresentar um maior risco de problemas de comportamento e emocionais, como hiperatividade ou ansiedade. É o que indica um estudo britânico realizado com mais de 10.000 crianças e cujas conclusões foram publicadas nesta segunda-feira na revista Pediatrics.

No artigo, os autores explicam que horários irregulares para dormir, assim como dormir pouco, afetam de forma negativa o ciclo circadiano, ou relógio biológico, da criança. Ou seja, prejudica o ciclo responsável por gerenciar o funcionamento do corpo e por regular, por exemplo, o apetite, os horários de sono e o humor.

“Alterar constantemente a quantidade de horas em que você dorme por noite ou então ir para a cama em horários diferentes a cada dia é como bagunçar o seu relógio biológico. Isso impacta a forma como o seu corpo será capaz trabalhar no dia seguinte”, diz Yvonne Kelly, pesquisadora da University College London e coordenadora do estudo.

A nova pesquisa levou em consideração os dados de 10.230 crianças da Grã-Bretanha. Os hábitos relacionados ao sono dessas crianças — como o horário em que elas iam para a cama todos os dias ou quantas horas por noite elas dormiam — foram analisados quando elas tinham 3, 5 e 7 anos de idade. Os pesquisadores levaram em consideração apenas os hábitos cultivados de segunda a sexta-feira. Além disso, pais e professores dessas crianças responderam a questionários sobre o comportamento delas.

As conclusões do trabalho indicaram que as crianças que não tinham horário definido para dormir apresentavam mais chances de desenvolver problemas de comportamento ou emocionais do que aquelas que iam para a cama no mesmo horário todos os dias da semana. Esses problemas incluíam, por exemplo, tristeza, envolvimento em brigas com colegas e imprudência, além de hiperatividade e ansiedade.

Fonte: medplan.com.br
Artigo extraído em: http://www.antroposofy.com.br/wordpress/crianca-sem-horario-certo-para-dormir-tem-mais-problemas-de-comportamento/

 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A televisão e o déficit de atenção


 Estudo comprova malefícios da TV no cérebro de crianças
 
Tirem as crianças da frente da TV. Pesquisadores descobriram que cada hora passada diante da televisão faz com que crianças em idade pré-escolar aumentem suas chances de desenvolver problemas de déficit  de atenção mais tarde.

Os resultados atestam que a TV pode diminuir os níveis de atenção das crianças e apóiam a recomendação da Academia  Americana de Pediatria, segundo a qual crianças com menos de dois anos  não devem assistir a programas de televisão.

“Existem milhares  de motivos para que as crianças não vejam TV. Estudos anteriores  mostraram que o hábito está associado a obesidade e agressividade  infantil”, afirma Dimitri Christakis, pesquisador do Centro Médico  Regional de Seattle. O resultado do estudo conduzido pelo doutor  Christakis foi divulgado na edição de abril da revista Pediatrics,  publicada pela Academia Americana de Pediatria.

Foram  pesquisadas 1.345 crianças de um a três anos de idade. De acordo com  informações fornecidas pelos pais, aproximadamente 36% das crianças de  um ano não assistiam nunca à TV, enquanto 37% assistiam de uma a duas  horas por dia e por isso possuíam um aumento de 10 a 20% de chances de  desenvolverem problemas de atenção. Nas crianças de três anos, apenas 7% não viam TV e 44% assistiam de uma a duas horas por dia. O resultado da pesquisa sugere que o hábito de ver TV superestimula e modifica o  desenvolvimento normal do cérebro de uma criança. Entre os riscos  encontrados estão dificuldade de concentração, impulsividade,  impaciência e confusão mental.

Os pesquisadores não se  preocuparam em saber que programas as crianças assistiam, pois, segundo  Christakis, o conteúdo não é o culpado pelos danos causados ao cérebro. O problema é a rápida superposição de elementos visuais, típica dos  programas de TV. “O cérebro de uma criança se desenvolve muito  rapidamente durante os primeiros três anos de vida. Ele está realmente  sendo ‘conectado’ neste tempo”, diz o pesquisador. O estímulo excessivo  durante este período em particular pode criar mecanismos danosos à mente da criança.

Fonte: http://www.antroposofy.com.br/wordpress/deficit-de-atencao/

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Será grave aprender a ler e escrever mais tarde? A opinião da Pedagogia Waldorf


Muitos pais ficam alarmados quando os seus filhos não aprendem rapidamente a ler ou escrever. E quando na escola os professores comentam "Parece que temos aqui um problema", então o alarme pode transformar-se em drama familiar.

Recorre-se rapidamente a entrevistas com psicólogos, testes, exames médicos, e finalmente aplicam-se planos de reforço ou coadjuvação do ensino. Mas será tudo isto realmente necessário?

A aprendizagem da língua materna e da aritmética são certamente pilares fundamentais da escolaridade. Mas conforme a nossa atual cultura tecnocrata, burocrática e "computocrática" exige cada vez mais uma competência prematura para "legibilidade" em todos os processos da vida, o adestramento literário ganhou um peso desproporcional e doentio no mundo da escolaridade inicial.

As crianças diferem grandemente entre si nas suas habilidades para aprender a ler. Algumas, consideradas minigénios, apresentam-se no seu primeiro dia de aulas prontas para demonstrar a toda a gente que "já sei ler e escrever", enquanto que outras escondem-se envergonhadas por não saberem nem desenhar muito bem um círculo para formar um "O". A aprendizagem da leitura não é nenhum procedimento técnico sistemático, mas sim um processo onde decorrem complexas interações sensoriais e intelectuais. Graças à moderna investigação médica, sabemos agora cada vez mais acerca da complexidade de tudo isso.

Personalidades de renome internacional na área das investigações neurocerebrais, como, por exemplo, Ernst Pöppel e Manfred Spitzer, estão a expor ao mundo a realidade de que o processo de aprender a ler é para uma criança de tenra idade algo profundamente não natural para o seu cérebro. Isto pode explicar em muitos casos aversões irracionais sentidas por alunos ou até mesmo o desastroso abandono precoce da caminhada escolar. Ao longo da evolução, o cérebro humano desenvolveu estruturas que em princípio seriam ideais para aprender a ler. Mas esse mesmo cérebro faz uma declaração aberta de antipatia perante o desafio de aprender a ler na idade infantil! O processo de ler pode mesmo provocar um bloqueio na capacidade de aprender sem esforço, e no prazer de recolher e processar informações. Assim, quando pretendemos auxiliar crianças com dificuldade de leitura, devíamos desde já tomar em conta estas descobertas da moderna investigação neurocerebral.

A capacidade de absorver informações escritas depende acima de tudo da capacidade de concentração. Sem a mesma, qualquer coisa captada pelos olhos em termos de leitura tende a permanecer nebulosa e incompreensível (veja-se o pavoroso analfabetismo funcional que, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - PNUD - de 2005, demonstrava que quase metade da população portuguesa não percebe o que lê ou tem dificuldade em entender completamente as informações que recebe). As crianças que não aprenderam previamente a concentrar-se, demonstram na escola uma quase automática dificuldade na aprendizagem da leitura. O filósofo Rudolf Steiner, inaugurador da Pedagogia Waldorf, expressou-se já em 1921 a esse respeito com as seguintes palavras: "Ensinar as crianças a ler e escrever da maneira despreparada que hoje se pratica significa basicamente introduzir as crianças de maneira totalmente artificial a algo que é estranho para elas."

Na Pedagogia Waldorf não há avaliações nem preparações prévias para a aprendizagem escolar, e a escritura é inicialmente aprendida através de um procedimento que envolve muita arte: fazem-se inúmeros exercícios de desenhar e pintar, treina-se a recitação oral e também as habilidades musicais. Ensina-se assim às crianças o escrever primeiramente a partir de uma captação artística das letras, e em seguida passa-se para a leitura a partir da escritura. Este processo baseia-se sobretudo nos exercícios de desenho de formas, durante os quais as crianças aprendem a compreender as nuances presentes em formas livres ou geométricas. A partir disto, elas irão alcançar uma criatividade autónoma para tais processos. A antropologia educacional profunda presente neste procedimento consiste na educação dos sentidos, para mais tarde compreender as formas das letras e saber reproduzi-las.

Que papel terá aqui a desempenhar a musicalidade? A Pedagogia Waldorf desenvolve uma combinação de musicalidade-vocalidade muito específica. Quando uma criança aprende a sentir a sua voz e avaliar o próprio timbre, ela estará mais bem preparada para compreender, no momento certo do seu crescimento, a musicalidade intrínseca das palavras. Muitas crianças não conseguem inicialmente diferenciar perfeitamente as vocalizações de "s" e "f" (como em "sinal" e "final"), mas com o auxílio de exercícios de recitação associados a canto, este e outros tipos de limitações são compensados desde muito cedo.

Numa escola Waldorf, após as crianças aprenderem a desenhar as formas artísticas isoladas das letras, é exercitada intensamente a capacidade de escrever, antes de se passar à leitura daquilo que a própria criança escreveu. No caso de crianças que neste estágio ainda não conseguem ler, o processo fica facilitado por exercícios de escritura de textos que previamente foram aprendidos a vocalizar de cor. A leitura de textos desconhecidos, impressos em livros ou revistas, ou aparelhos eletrónicos, é expressamente deixada para mais tarde. Se pais e professores não se deixarem afligir ou iludir pelo aparente "atraso" de uma criança, as competências em leitura e escritura podem depois serem facilmente alcançadas ao final do 2.º ano de escolaridade, sem esforço e sem a aplicação de intervenções artificiais.

Naturalmente, sempre há crianças que mesmo no final do 2.º ano ainda não dominam a arte da leitura, e que em comparação com outras também são insuficientes quanto à escrita. Geralmente é aqui que o sistema de ensino tradicional começa a designar tudo como uma "insuficiência séria e preocupante". Para a Pedagogia Waldorf, uma habilidade tardia em saber ler é na realidade muito menos grave do que forçar uma aprendizagem prematura da leitura. O procedimento de leitura exige uma aplicação de energias intelectuais. Mas se estas não estiverem já presentes de modo inato na criança, esse esforço deve ser evitado no primeiro seténio (os primeiros sete anos de vida), caso contrário a solicitação reforçada de atividade mental irá enfraquecer a saúde física e o equilíbrio anímico, que são precisamente o fundamento para uma ulterior metamorfose das faculdades mentais.

Há atualmente uma infinidade de métodos e exercícios (desde livros, manuais e baterias, até programas para computadores) para o treino precoce da leitura. Tudo isto baseia-se numa infeliz conceção educacional que reza que as futuras "aptidões" do adulto devem ser exercitadas o mais cedo possível. O desastroso provérbio "É de pequenino que se torce o pepino" demonstra com sabor folclórico a presença desta falácia, até no mais alto escalão do mundo educacional.

Sempre que são roubadas a uma criança energias que ainda não estão presentes congenitamente, a sua constituição física e anímica irá procurar compensar a perda dessas energias apelando a outros recantos da alma. Conforme a moderna ciência começa hoje a confirmar, um treinamento precoce da habilidade de ler pode ter em muitas crianças consequências negativas. Pais e educadores permanecem cegos para esta realidade, porque tais consequências só se irão apresentar num estágio posterior da vida, por exemplo na forma de uma pré-disposição para abstrações, o que por sua vez pode até explicar o aparecimento de estados escleróticos.

Conforme Rudolf Steiner explicou, as energias que tenham sido economizadas devido a uma aprendizagem tardia da leitura poderão inclusive revelar-se como positivas na vida adulta. Numerosas personalidades geniais em todo o mundo possuem na sua biografia um histórico de aprendizagem tardia da leitura e dificuldades com a escrita durante o período escolar. Na Pedagogia Waldorf não se tenta "fazer a relva crescer mais rápido puxando-a". Quando confrontado com uma criança que apresenta desvios da norma quanto à habilidade de ler e escrever, um professor dedica-se antes de mais nada a compreender a totalidade da vida interior e exterior da criança, tanto na escola como no lar. Ele procurará descobrir objetivamente e intuitivamente que peculiaridades ou genialidades estão presentes em estado latente na criança, para ela ser como é. Em muitos casos, encontra-se auxílio numa ocupação artística, ou numa atividade física salutar, após o horário escolar. O efeito destas atividades é em muitos casos imediatamente sentido na escola.

Para alguns educadores e pais, tais atividades extracurriculares podem parecer supérfluas, custosas ou impertinentes. Mas uma observação mais detalhada da prática educacional nas escolas Waldorf (e a Pedagogia Waldorf está agora próxima de celebrar um centenário de existência, com uma interminável expansão por todo o Mundo) demonstrará que nas chamadas "crianças difíceis" está sempre presente algo de extremamente individual, singular e original, algo que pretende expressar-se de algum modo, e que clama por mais atenção do mundo ao seu redor. O professor procurará então sempre que possível proporcionar à criança um espaço protetor na sua classe, e uma adequada atmosfera social no seio da comunidade escolar. Isto não é fácil de realizar, pois geralmente tem que se lutar com coragem contra preconceitos, hábitos empedernidos e falsas propostas científicas carregadas de puro utilitarismo e cegueira quanto à essência do que é um ser humano.

Mas quem se dedica com amor, intensidade e compreensão a esse tipo de crianças terá em pouco tempo a confirmação de que elas possuem, em estado embrionário, energias extraordinárias ou aptidões específicas que serão mais tarde apreciadas pela sociedade. Elas poderão demonstrar, por exemplo, uma capacidade de compaixão maior perante terceiros, uma sensibilidade intuitiva para os pensamentos e sentimentos presentes no seu meio ambiente, e uma expressividade superior em termos de imaginação e fantasia.

RAUL GUERREIROProfessor Waldorf; Membro do Conselho Nacional Parental Waldorf da Alemanha; Membro da Amnesty International.

Artigo publicado em 11-06-2013
Fonte: http://www.educare.pt/testemunhos/artigo/ver/?id=12596&langid=1

Foto extraída em:http://www.coisademae.com/2013/04/alfabetizacao-precoce-por-que-a-pressa/

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Dia das Crianças Sem Consumismo. É de pequeno que se aprende.


Campanha "Dia das Crianças sem consumismo. É de pequeno que se aprende" do Movimento Infância Livre de Consumismo - O Jardim Alecrim Recife apoia esta iniciativa!

Queremos dar sempre o melhor para nossos filhos e o Dia das Crianças, tão esperado pelos pequenos, pela indústria e pelo comércio, é uma boa oportunidade para refletirmos sobre tudo aquilo de bom e de melhor que podemos oferecer às nossas crianças. É um bom momento para aprendermos a desconfiar daquele primeiro “eu quero” pronunciado efusivamente diante da televisão ou da prateleira das lojas de brinquedos.
Parece clichê, mas é fato que o de melhor que podemos dar aos nossos filhos não custa dinheiro, custa tempo e disponibilidade. Tempo com corpo, alma e coração presentes nos momentos com nossos filhos e disponibilidade para conhecê-los de verdade, assim como aos seus desejos. Nossa proposta é aproveitar o Dia das Crianças para pensar junto com as crianças sobre como diferenciar os nossos desejos genuínos e aqueles que são implantados pela publicidade.
A publicidade trabalha com sofisticadas pesquisas de mercado e age no nosso emocional focando as nossas vulnerabilidades. Raramente vemos um produto – para criança ou para adulto – que venda um atributo material: a publicidade atual vende atributos intangíveis, valores que muitas vezes correspondem às nossas lacunas pessoais. Então num anúncio de trem elétrico veremos a diversão da família sentada vivenciada no tapete da sala ao redor do brinquedo. E é isso que a criança quer: a diversão em família e não, necessariamente, o objeto anunciado.
O que está mais acessível? A vivência-brincadeira em família no chão da sala ou o objeto-brinquedo caro na prateleira da loja? Do que é mais fácil dispor? Tempo ou dinheiro?
Todo o marketing, todos os editoriais e todas as colunas de comportamento repetem que não temos tempo. E, acreditando que estamos sem tempo à nossa disposição, nos parece mais “fácil” trabalhar ainda mais para conseguir o dinheiro para comprar o objeto-brinquedo e satisfazer o suposto desejo da criança. E assim temos a tranquilidade de estar fazendo o melhor. Estamos mesmo?
É essa a proposta do Movimento Infância Livre de Consumismo para este Dia das Crianças: vamos trocar aquilo que está em qualquer prateleira pelo tempo de qualidade com nossos filhos. Vamos reduzir o número de objetos-brinquedo e vamos investir em vivências-brincadeira. Vamos ensinar às nossas crianças algo que mesmo nós, adultos, temos tido dificuldade de entender: que momentos vividos de corpo, alma e coração têm mais valor que os objetos promovidos na tevê.

E vamos aguçar os sentidos para perceber que estes momentos singulares e amorosos é que serão os que ficarão na memória dos pequenos para sempre!